2 de março de 2011

Receita do não-sozinho


Tudo parece ser simples.
Não quer se decepcionar? Não conheça ninguém. Uma boa pedida é fazer uma visita a algum tipo de monge ocidental eremita, ou mais sociáveis do tipo tibetanos, mesmo assim é possível que você se decepcione com algum dos irmãos por alguma careca mais bonita ou a habilidade do canto gregoriano de outro.
Não quer se estressar? Se retire da vida profissional e de tudo que te causa raiva, ódio ou repúdio. O nível de estresse no Tibete chega a míseros 2%, esses 2% só por esperar um temido ataque de alguma força chinesa, como nos velhos tempos da dinastia Qing.
Não quer seus pais aconselhando/pentelhando sua vida adolescente ou na maioridade? Cristo, disse a certa feita: ”Renuncia-te a ti mesmo, toma tua cruz e segue-me”. Assim fazem ao extremo os cartuxos, filhos de São Bruno. Em seus mosteiros regados a silêncio, separados do mundo como conhecemos, onde saem uma vez por semana para um passeio sem ver ninguém, onde só resta a inexistência de rádio e tv, a impossibilidade de visitas (inclusive dos pais), um completo isolamento para uma completa contemplação até a morte. No Tibete algum Buda ou um Dalai Lama deve ter falado coisa parecida. Uma solução a sua rebeldia compreensiva.
Não quer trocar de amigos com o tempo? Indo a montanha você conhecerá os amigos que irão morrer com você, grande lealdade.
Não quer uma paixão arrebatadora que te cause traumas? Lá com os eremitas o que te resta é o amor ao próximo. Seu coração é todo doado ao irmão e a contemplação divina, sendo ocupado como um todo, paixões são vagas e banais nesses lugares.
Não quer ficar sozinho? Então volte todos os parágrafos e responda com um “quero” a todas perguntas e assuma suas consequências.
Decepcione-se com as pessoas, saiba que você também desapontou algumas delas. A perfeição é um caminho longo e tortuoso que pouquíssimos alcançam, sem sequer saber a real definição de perfeição.
Entre de cabeça no estresse, afinal ele pode ser seu ganha pão. Há prazer após o término do desafio, ao fim extravaze do jeito que achar melhor, inclusive podendo desapontar alguém.
Seus pais um dia você irá entender, portanto aproveite-os antes que compreenda. Chore, brigue fuja, ria, discuta, ame, do jeito que amar, com ou sem palavras, com ou sem atitudes. Você demonstra nem que os decepcione ou sua extravazada seja grande demais para a compreensão deles.
Aproveite seus amigos enquanto estiverem por perto e de muito valor àqueles que te acompanham há doze, quinze anos. Aos demais que vem e vão aproveite enquanto estiverem por aí. A máxima é diversão, parceria, sorria com seus amigos, sabemos que vai se desapontar com alguns deles, outros farão parte da sua extravazada e seus pais vão te chatear devido a algumas amizades.
Enfim, se encha de feridas com a navalha do amor. Se entregue, sofra e faça sofrer, traumatize-se, curta e deixe alguém cicatrizar seu ferimento. Tudo quase nessa ordem que parece ser lógica, seus amores te decepcionarão, serão motivo para extravazar, seus pais reprovarão  e depois aprovarão, amizades se renovarão, amores e paixões virão. Tenha histórias, estórias, músicas e causos.
Não é um texto do tipo que vira música do filtro solar, se encaixa mais como uma receita na Ana Maria Braga ou com a Palmirinha, a receita do não-sozinho. Adicione um quero para cada pergunta e acrescente sal à gosto.
Temos planos de meio-sozinho, consulte seu agente de vida.
Ainda assim mosteiros, eremitas, abadias, clausuras e montanhas parecem uma boa saída.

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